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Linha neutra da chapa: por que a planificação usa D − e, e o desconto de dobra

Atualizado em 15 de Setembro de 2026

Toda chapa conformada tem uma superfície que não estica nem comprime: a linha neutra. Numa calandragem ela fica no meio da espessura, e é nela que o comprimento da chapa plana é igual ao da peça pronta. É por isso que a virola se desenvolve com π × (D − e) e não com π × D, e é o erro mais comum de quem aprende a traçar.

Este guia explica a regra, mostra quanto ela vale em números, o que muda no cone, e o caso em que a linha neutra sai do meio: a dobra na prensa com raio pequeno.

O que acontece com a chapa ao calandrar

Quando a chapa vira, a face de fora estica e a face de dentro comprime. Entre as duas existe uma superfície que mantém o comprimento: em calandragem, com raio muito maior que a espessura, ela fica no meio, a e/2 de cada face. O perímetro da peça pronta medido nessa superfície é igual ao comprimento da chapa plana; medido na face externa, é π × e maior.

A conta, então, é sempre na linha média. Diâmetro externo D e espessura e dão o diâmetro médio D − e; diâmetro interno Di dá Di + e. O que nunca serve é o diâmetro que se mediu, sem corrigir.

Quanto sobra quando se usa o diâmetro externo

Comprimento da virola
L = π × (D − e) A diferença para π × D é π × e, independente do diâmetro: só a espessura conta.
Virolaπ × Dπ × (D − e)Sobra na costura
300 mm em chapa 3942,5 mm933,1 mm9,4 mm
800 mm em chapa 102513,3 mm2481,9 mm31,4 mm
1500 mm em chapa 12,74712,4 mm4672,5 mm39,9 mm
2000 mm em chapa 256283,2 mm6204,6 mm78,5 mm

Nove milímetros são suficientes para a costura sobrepor numa virola de 300. Em chapa grossa a sobra passa de cinco centímetros, e a peça sai ovalada tentando acomodar o excesso. O mesmo vale para cada gomo de uma curva de gomos e para o ramo de uma derivação.

No cone o desconto é menor

No cone a superfície média também está meia espessura para dentro da externa, mas medida na NORMAL da chapa, que é inclinada. O desconto no raio não é e/2: é (e/2) × cos α, com α o ângulo de meia abertura do cone. Quanto mais raso o cone, menor o desconto.

Desconto no raio do cone
δ = (e / 2) × cos α = (e / 2) × h / g h é a altura e g a geratriz. Num cone alto, cos α tende a 1 e o desconto vira e/2, o da virola. Num cone raso, cos α tende a zero.

A prova está no limite: com altura zero o cone é um anel plano, e o gabarito de uma arruela é a própria arruela, sem desconto nenhum. Quem desconta e/2 do raio em qualquer cone acerta na virola e erra no cone raso: num chapéu chinês de 800 mm por 60 de altura em chapa 20, a diferença passa de 50 mm no perímetro. Num redutor comum de parede fina é décimo de milímetro, e ninguém nota.

PeçaDesconto e/2Desconto (e/2) × cos αDiferença no diâmetro
Redutor 800/1200/800 em chapa 31,50 mm1,46 mm0,08 mm
Cone 200/1000/300 em chapa 105,00 mm3,00 mm4,0 mm
Chapéu chinês 800 × 60 em chapa 2010,0 mm1,48 mm17 mm

Furos em virola e cone

O furo do bocal numa virola também se desenvolve na linha média, e por isso ele sai mais largo na chapa plana do que o diâmetro do ramo: um furo de 200 numa virola de 400 em chapa 6 mede 206,3 mm de largura na chapa, pouco mais de 3% a mais. É o que a virola com furo para derivação e os cones com furo já fazem por conta própria.

Na dobra em prensa a linha neutra sai do meio

Tudo acima vale para calandragem, em que o raio é dezenas de vezes maior que a espessura. Numa dobra de prensa com raio interno r pequeno, a chapa não vira num ponto: ela vira num arco, e nesse arco a linha neutra se desloca para dentro. O que governa é a razão r/e, e a tabela clássica é a de Rossi, que os programas de caldeiraria publicam como fator da linha neutra:

r / e0,20,51,02,03,04,05,010> 10
Posição da linha neutra (% da espessura, a partir de dentro)34,738,742,145,146,547,047,848,750

Acima de r/e = 10 a linha neutra É o meio, que é o caso da calandra. Abaixo disso, o gabarito do canto vivo, que é o que todo traçado teórico entrega, sai longo: cada dobra pede um desconto.

Desconto por dobra
desconto = 2 × (r + e) × tg(a/2) − a × (r + k × e) a é o ângulo da dobra em radianos, r o raio interno e k o fator da tabela. Num tubo 500 × 300 em chapa 1,5 com quatro dobras de 90°, o desconto total é de 3,5 mm com raio 0,75 e 9,0 mm com raio 4,5, sempre para menos.

Canto vivo não é o limite do canto com raio: com r tendendo a zero a conta do arco tende a 1,21 espessuras de desconto por dobra, e a do canto vivo usa uma espessura. São processos diferentes. Canto vivo é exato para canto SOLDADO de chapas separadas, ou para o canto entalhado em V, que é como muita caldeiraria monta em chapa grossa; raio maior que zero é prensa. Na redução retangular e nas outras peças de faces planas, o Planichapa desenvolve o canto vivo e, quando você informa o raio de dobra, diz o desconto na nota de montagem.

Regras práticas

  • Calandra: diâmetro médio, D − e. Sempre. Em virola, gomo, ramo, tubo oval e tubo elíptico.
  • Cone: (e/2) × cos α no raio. Em redutor de parede fina tanto faz; em chapa grossa e cone raso, não.
  • Furo em virola ou cone: a chapa plana mostra o furo mais largo que o ramo. Não risque um círculo.
  • Prensa com raio: canto vivo mais desconto por dobra, pela tabela de r/e. Quatro dobras de 90° em chapa 1,5 já somam 3,5 a 9 mm.
  • Solda: o gabarito é a peça acabada na linha média. Chanfro, abertura de raiz e sobremetal são do processo, e entram por cima.

Perguntas frequentes

O que é a linha neutra da chapa?
A superfície da chapa que não estica nem comprime ao ser conformada. Em calandragem ela fica no meio da espessura, e é nela que o comprimento da chapa plana é igual ao perímetro da peça pronta. Por isso a planificação usa o diâmetro médio, D − e.
Por que a virola se calcula com D − e e não com D?
Porque a face externa estica ao calandrar: o perímetro externo da peça pronta é maior que o comprimento da chapa que a fez. O comprimento certo é o do perímetro na linha média, π × (D − e). Com π × D a chapa sai π × e comprida: 9,4 mm em chapa 3, 31,4 mm em chapa 10.
Se eu medi o diâmetro interno, uso Di + e?
Sim. O diâmetro médio é Di + e, ou D − e: os dois dão o mesmo número, o da linha neutra.
O que é o fator K?
É a posição da linha neutra na dobra, como fração da espessura a partir da face interna. Em calandra ele é 0,5. Em dobra de prensa com raio pequeno cai para 0,35 a 0,45, conforme a razão raio/espessura, e é ele que entra no desconto de dobra.
A espessura entra no cálculo do Planichapa?
Entra em todas as 50 peças: calandra em D − e, cone em (e/2) × cos α na normal, furos na linha média, e desconto de dobra nas peças de faces planas quando você informa o raio. É o que os specs de linha neutra do próprio cálculo conferem, peça por peça.